Posted by: guyveloso | 21 de November de 2010

Jornal O Diário do Pará, 21.11.10

Da série “Penitentes”, 29a Bienal Internacional de SP

Guy Veloso desvenda a fé brasileira em imagens

22.11.2010

http://diariodopara.diarioonline.com.br/N-119944-GUY+VELOSO+DESVENDA+A+FE+BRASILEIRA+EM+IMAGENS.html

Nem mesmo quando iniciou a faculdade de Direito, com 17 anos,  Guy Veloso pensou a fotografia seria apenas uma aventura. Dedicado e persistente, foi em busca da temática religiosa, impulsionado pela curiosidade em desvendar crenças e ritos sagrados por meio de imagens.  Com o recorte do projeto “Penitentes: dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo” – densa pesquisa iniciada em 2002 – foi  convidado pelos curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias para compor a mostra oficial da 29ª Bienal de São Paulo em 2010, umas das exposições mais importantes do mundo. No Pavilhão Ciccillo Matarazzo, do Parque Ibirapuera, 12 fotos coloridas – selecionadas com a valiosa ajuda de Rosely Nakagawa, que acompanha o projeto desde o início – foram distribuídas em 20 metros de parede, no terceiro andar. Para o fotografo, a exposição localiza-se em um dos locais mais privilegiados de toda a Bienal, dialogando com vizinhos de peso: Nuno Ramos (o que colocou urubus vivos em sua obra), Antonio Dias e Steve McQueen.

O inquestionável valor artístico do projeto “Penitentes” reforça-se com a inestimável pesquisa antropológica. Em 2009, Guy começou a desconfiar que, diferentemente do que indicavam suas pesquisas acadêmicas, os “alimentadores de almas” – como também são conhecidos os penitentes – poderiam existir nas cinco regiões brasileiras. Jamais pesquisador algum divulgou essa informação. Guy Veloso testemunhou os grupos religiosos de norte a sul. Este ano, provou (e publicou) sua teoria cobrindo o país inteiro, com (até agora) 117 grupos do jornal O Esatdo de São Paulo destaca que o fotografo apresenta “Não uma fé dogmática ou sistemática, mas a que transparece em imagens surreais e fascinam pelo desconforto que nos causam. De toda forma, quanto mais se discute o papel da fotografia no mercado da arte, mais ela se afirma e se fixa em sua função documental”.

Penitentes

Procurar os mistérios da fé e as possibilidades estéticas da devoção foram para Guy mais do que pretextos para fotografar; foram motivos de busca interpessoal. A exemplo do caminho em Santiago de Compostela, na Espanha, Guy passou quatro meses na Índia. “Sentei na pedra em que Krishna nasceu, fui onde Sai Baba dá a bênção e onde Buda deu seu primeiro sermão”, conta. Porque para ele, espiritualidade não é só tema para seu trabalho, mas também busca dentro de si. Mesmo diante de intempéries – como acidente com o carro em Sergipe, um dedo do pé quebrado no Ceará, furto de uma câmera filmadora em Aracaju, dengue em Oriximiná, depressão no Ceará em decorrência do tema e brigas por telefone com a então namorada – Guy conta que “Nunca pensei em desistir, mas pensei em dar um tempo. Saí de Juazeiro com raiva, estava ficando tenso, deprimido ouvindo cânticos tristes, evocações à morte. Fui para Recife e fiquei apenas dois dias. Voltei para lá”.

A vontade de fotografar e a persistência de continuar os projetos, por vezes árduos, poucas vezes foram postas à prova. Foram oito anos em que feriados eram pretextos para deixar Belém rumo ao Nordeste. Não para as praias paradisíacas, mas para o interior de um país que ele busca compreender, por meio da pesquisa antropológica, em parcerias com pesquisadores, páreo com a fotográfica. Foi atrás de pessoas – muitas delas pobres, carentes de saúde e educação, e que ainda mantêm ritos sagrados, seculares, pela fé, por acreditar estarem rezando pelas almas do purgatório. Segundo as curadoras Angela Magalhães e Nadja Peregrino, “há uma ambiguidade de sentido na representação dos homens encapuzados quando comparados aos violentos Ku-Klux-Klan, ao emblemático Chador das mulheres muçulmanas e aos sequestradores contemporâneos que evocam o clima de insegurança tão presente no mundo globalizado”.

De tanto percorrer a região com o maior número de estados no país, o fotógrafo acabou criando laços com os fotografados. Mesmo que tênues, não foram desfeitos. Isso se reflete na maneira como ele procura conduzir cada momento a ser fotografado: com permissão, com diálogo, nunca sob imposição. Como mais um homem no meio de tantos outros. Gosta de saber das histórias, das vidas, da arte da vida. Durante as fotografias dos grupos de penitentes – que ocorrem geralmente no período noturno – passa o dia entre um café e um abraço nas casas modestas de barro, fotografando crianças brincando e famílias que se unem para um dos poucos registros que terão durante a existência.

Além disso, grava entrevistas e colhe depoimentos em vídeo – que futuramente poderão transformar-se em material para futuras exposições. A relação com o povo nordestino passou a fazê-lo admirar e respeitar a sabedoria dos mestres artesãos. Em sua casa, possui algumas esculturas em madeiras e obras da legítima arte popular brasileira. Durante visita à sua casa, faz questão de mostrar cada peça. “Hoje, a arte bruta também têm me influenciado muito. É um envolvimento emocional, fico amigo das pessoas. A partir dessas relações, a minha memória emocional começou a se modificar”, diz o fotógrafo, que criou o hábito de comprar ou até mesmo é presenteado com as obras durante suas viagens.

Insight

No final da década de 1980, começo de 1990, ele já havia participado de algumas exposições coletivas e continuou fotografando de maneira experimental. O momento decisivo para que a experiência fotográfica fosse realmente algo que ele perseguiria, obstinado, aconteceu durante a viagem à Espanha, em 1993, para realizar o Caminho de Santiago de Compostela. Durante o percurso de mais de 800 quilômetros a pé, não largou a câmera fotográfica. Registrou todo o Caminho. Mais do que a simples atividade de fotografar, que começava então a solidificar-se, Guy começou a pensar sobre a vida. Eram reflexões de cunho existencial e questionamentos sobre o futuro.  Chegou a conclusão, naquele momento, de que a fotografia seria algo que não deixaria de realizar jamais.

No pais ibérico, pensou sobre os próprios rumos e vislumbrou o ofício de maneira eloqüente, que jamais seria um passatempo, uma empolgação efêmera. “Fiquei um mês com a mochila nas costas e decidi que não ia ser advogado, mas seguir em algum caminho pelas artes. Ainda não sabia se era fotografia”, diz Guy, que mesmo já envolvido com fotografia, ainda tinha dúvidas sobre o que seguir. “Anos depois, em uma oficina com o Walter Firmo, tive um insight: era isso mesmo que queria fazer para o resto da minha vida”, relembra. E a procura pela atividade o levou a freqüentar oficinas na Fotoativa e cursos com fotógrafos como Fernando Del Pretti e Miguel Chikaoka, por exemplo.

Vida de fã

Aos 41 anos, fã de Legião Urbana, Guy tem um sonho: fotografar o apartamento de Renato Russo, que permanece intacto desde a morte do cantor em 1996. E não pretende desistir. “Queria passar uma hora fotografando”, confessa.  Sobre a influência do ídolo, ele destacada a melancolia das letras feitas por Renato Russo. A banda terminou no dia 22 de outubro de 1996, 11 dias após a morte do líder, quando os músicos e parceiros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá anunciaram oficialmente que a banda não poderia seguir sem Renato. Coincidentemente, neste dia Guy completava mais um ano de vida. (Diário do Pará). Site do fotógrafo: www.fotografiadocumental.com.br


Responses

  1. […] Catálogo Bienal – Entrevista – Report. (Patrim. Imat. Bahia) – MATÉRIA. […]


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