Posted by: guyveloso | 25 de July de 2012

É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.

 

 

 

 

 

 

 

É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros.

Exposição coletiva com curadoria de Paulo Miyada.

Oficina Cultural Oswald de Andrade (SP-SP). Abertura: primeiro de setembro de 2012.

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É PRECISO CONFRONTAR AS IMAGENS VAGAS COM OS GESTOS CLAROS
Em Agosto de 1967, Jean-Luc Godard lançou o filme La Chinoise, sobre um grupo de jovens estudantes que aproveitaram a viagem de férias dos pais de uma garota para transformar seu apartamento em uma célula revolucionária maoísta. Articulando procedimentos gráficos e audiovisuais desenvolvidos por Godard ao longo da década com informações e ideias dos próprios atores participantes – entre eles Anne Wiazemsky (Veronique), então namorada do diretor -, o filme oscila entre uma homenagem inflamada e uma paródia irônica do engajamento estudantil que culminaria menos de um ano depois nos acontecimentos de Maio de 1968. Numa das paredes do apartamento, aparece uma frase-síntese da visão política engendrada no filme: É PRECISO CONFRONTAR AS IDEIAS VAGAS COM AS IMAGENS CLARAS. Sucinta, deixa claro o incômodo do cineasta em relação aos jargões e palavras de ordem acumulados pela esquerda francesa e que, interpretados de maneira vaga por seus defensores, acabavam falhando em dar forma a projetos claros, política e esteticamente. Críticas como essa geraram protestos entre diversos grupos da esquerda que, após a estreia do filme, não tardaram em taxar Godard como conservador e acadêmico. Ainda assim, os desdobramentos de Maio de 68, ou melhor, a sua relativa falta de desdobramentos, reiteraram em parte a precisão de seu comentário, que hoje pode ser lembrado lado a lado com o desabafo de Caetano Veloso em sua célebre (não) interpretação de “É proibido proibir” em 15 de setembro de 1968, no terceiro Festival Internacional da Canção.
Hoje, diante das constantes recuperações do repertório da contracultura dos anos 1960 e da procura por formas de engajamento político que lidem com o enfraquecimento de fóruns tradicionais como os sindicatos e as diretórios estudantis, parece pertinente ressoar a frase pintada no apartamento de Veronique. No entanto, justamente pela constante inversão de significado que muitos dos jargões da contracultura sofreram através da captura por mídias e canais responsáveis pela reafirmação do desejo de consumo, espetáculo e manutenção da ordem atual, parece pertinente revisar a frase escrita em 1967. Repetir o confronto das ideias vagas pelas imagens claras poderia muito bem ser o mote de uma propaganda de uma marca de energéticos ou de roupas esportivas, uma vez que hoje são alardeadas como claras as imagens geradas em alta definição, cores saturadas e passíveis de serem vistas em 3D, em transmissão simultânea. O problema é que essas são imagens, embora nítidas, são opacas enquanto artefatos ideológicos. Como apreender fenômenos imagéticos como, digamos, uma Lady Gaga, ou a décima edição do Big Brother Brasil? Oscilantes, suas imagens oferecem-se como cristais refratores que espelham distintos contornos a cada momento para cada observador. Suas supostas transparências e a constante acessibilidade através de imagens nítidas escondem inúmeras decisões que em nada se relacionam com sua superfície em exposição. Tal natureza de imagens é preponderante inclusive em certos territórios da arte contemporânea, que oscilam de forma a oferecer imagens de bela manufatura, mas que escusam-se de uma posição ideológica clara, através de configurações “meio-bizarras/meio-elegantes”, “meio-descuidadas/meio-virtuosas”, “meio-apropriadas/meio-originais”, e assim por diante.
Cabe propor, hoje, uma inversão: É PRECISO CONFRONTAR AS IMAGENS VAGAS COM OS GESTOS CLAROS. O que foi dito antes aponta o que seriam essas imagens vagas, resta, portanto, esclarecer o que podem ser os gestos claros que devem se contrapor a elas. Caberá à exposição e seu ciclo de performances e debate explorar algumas hipóteses acerca dos gestos claros que podem ser propostos desde o campo da arte contemporânea. Primeiro, existem trabalhos que reverberam certo legado do expressionismo abstrato norte-americano, no sentido de que são produções de imagem profundamente intrinsecamente associadas ao gestual do corpo e à sintaxe linguística de seus autores. Depois, obras que focam-se nas relações entre o corpo e o espaço e entre o corpo e outros corpos como dispositivos de definição de territórios e espacialidades articuladas com a presença do artista na realização de sua obra. Por fim, processos criativos que, por sua acentuada clareza de conceito e método, podem sobrepor-se a sistemas opacos da realidade, revelando parte de suas estruturas.
Paulo Miyada

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