Posted by: guyveloso | 22 de August de 2012

É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros

Oficina Cultural Oswald de Andrade apresenta:

É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros

Curadoria: PAULO MIYADA

 Abertura 01.09.2012 – 13h

 Visitação 01.09.2012 – 26.10.2012

Segunda a Sexta, 9h – 21h30

Bíptico. Desfile da Portela, Rio de Janiero, 2008. Digital

Guy Veloso. Díptico, 2011. Círio de Nazaré, Belém-PA (cromo, 2010)

Programa 1 . Performance. 01.09 . Sábado . 15h
Faço o que posso, não o que quero, Guilherme Peters, 2012
Gesto de Artista, Carlos Monroy, 2012
Performances que se valem do repertório desse campo da arte contemporânea para refletir sobre os limites e as promessas do gesto artístico.

Programa 2 . Dança . 06 e 07.10 . Sábado – Domingo . 18h
3 tempos num quarto sem lembranças, Juliana Moraes, 2009
Tentativa de salvar o mundo, Júlia Rocha, 2008-2010
As apresentações exploram rotinas repetitivas de movimentos a fim de dramatizar seus desdobramentos simbólicos e identitários.

Oficina . Chino para principiantes

Coordenação . Gala Berger

25,27,28.08 – Sábado, segunda e terça . 15-18h

Inscrições . 16.07-22.08

Seleção . Primeiros inscritos . 20 vagas

Oficina . Potlatch – A troca como motor da mediação e da arte contemporânea

Coordenação . Valquíria Prates e Paulo Miyada

22.09 Sábado 10-18h [com uma hora de intervalo]

Público . artistas, curadores, educadores e interessados. Inscrições: 06.08-19.09

Seleção . Primeiros inscritos . 25 vagas

Bruce Nauman . Carlos Monroy . Cia. Ludens . Clara Ianni . Cleverson Salvaro . Dennis Oppenheim . Douglas Pêgo . Elaine Arruda . Felipe Salem . Francesca Woodman . Gisela Motta e Leandro Lima . Guilherme Peters . Gustavo Speridião . Guy Veloso . Henrique Cesar . Júlia Rocha . Juliana Moraes . Marcelo Solá . Marcone Moreira . Nino Cais . Paulo Bruscky . Pedro França . Theo Craveiro . Vijai Patchineelam

É PRECISO CONFRONTAR AS IMAGENS VAGAS COM OS GESTOS CLAROS

Em Agosto de 1967, Jean-Luc Godard lançou o filme La Chinoise, sobre um grupo de jovens estudantes que aproveitaram a viagem de férias dos pais de uma garota para transformar seu apartamento em uma célula revolucionária maoísta. Articulando procedimentos gráficos e audiovisuais desenvolvidos por Godard ao longo da década com informações e ideias dos próprios atores participantes – entre eles Anne Wiazemsky (Véronique), então namorada do diretor -, o filme oscila entre uma homenagem inflamada e uma paródia irônica do engajamento estudantil que culminaria menos de um ano depois nos acontecimentos de Maio de 1968. Numa das paredes do apartamento, aparece uma frase-síntese da visão política engendrada no filme: É PRECISO CONFRONTAR AS IDEIAS VAGAS COM AS IMAGENS CLARAS. Sucinta, deixa claro o incômodo do cineasta em relação aos jargões e palavras de ordem acumulados pela esquerda francesa e que, interpretados de maneira vaga por seus defensores, acabavam falhando em dar forma a projetos claros, política e esteticamente. Críticas como essa geraram protestos entre diversos grupos da esquerda que, após a estreia do filme, não tardaram em taxar Godard como conservador e acadêmico. Ainda assim, os desdobramentos de Maio de 68, ou melhor, a sua relativa falta de desdobramentos, reiteraram em parte a precisão de seu comentário, que hoje pode ser colocado lado a lado com o desabafo de Caetano Veloso em sua célebre (não) interpretação de “É proibido proibir” em 15 de setembro de 1968, no terceiro Festival Internacional da Canção.

Hoje, diante das constantes recuperações do repertório da contracultura dos anos 1960 e da procura por formas de engajamento político que lidem com o enfraquecimento de fóruns tradicionais como os sindicatos e os diretórios estudantis, parece pertinente ressoar a frase pintada no apartamento de Véronique. No entanto, justamente pela constante inversão de significado que muitos dos jargões da contracultura sofreram através da captura pela mídia e canais responsáveis pela reafirmação do desejo de consumo, espetáculo e manutenção da ordem atual, convém revisar a frase de 1967. Repetir o confronto das ideias vagas pelas imagens claras poderia muito bem ser o mote de uma propaganda de uma marca de energéticos ou de roupas esportivas, uma vez que hoje são alardeadas como claras as imagens geradas em alta definição, cores saturadas e passíveis de serem vistas em 3D, em transmissão simultânea. O problema é que essas são imagens, embora nítidas, opacas enquanto artefatos ideológicos. Oscilantes, elas se oferecem como cristais refratores que espelham distintos contornos a cada momento para cada observador. Sua suposta transparência e nitidez disfarçam inúmeras decisões dissociadas da sua superfície visível. Tal natureza de imagens é preponderante inclusive em certos territórios da arte contemporânea, que oscilam de forma a oferecer objetos de bela manufatura, mas que escusam-se de uma posição ideológica, através de configurações “meio-bizarras/meio-elegantes”, “meio-descuidadas/meio-virtuosas”, “meio-apropriadas/meio-originais”, e assim por diante.

Cabe propor, hoje, uma inversão: É PRECISO CONFRONTAR AS IMAGENS VAGAS COM OS GESTOS CLAROS. O que foi dito antes aponta o que seriam essas imagens vagas; resta, portanto, esclarecer o que podem ser os gestos claros que devem se contrapor a elas. Caberá à exposição, e a seu ciclo de performances e debate, explorar algumas hipóteses acerca dos gestos claros que podem ser propostos desde o campo da arte contemporânea. Primeiro, existem trabalhos que reverberam certo legado do expressionismo abstrato norte-americano, na medida em que são produções de imagem intrinsecamente associadas ao gestual do corpo e à sintaxe linguística de seus autores. Depois, obras que focam-se nas relações entre o corpo e o espaço e entre o corpo e outros corpos como dispositivos de definição de territórios e espacialidades articuladas com a presença do artista na realização de sua obra. Por fim, processos criativos que, por sua acentuada clareza de conceito e método, podem sobrepor-se a sistemas opacos da realidade, revelando os contornos de partes de suas estruturas antes ocultas.

Paulo Miyada

Curador e pesquisador de arte contemporânea. Trabalhou como assistente de curadoria da 29a Bienal de São Paulo, coordena o Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake e integra a equipe curatorial do projeto Rumos Artes Visuais 2011-13. Desenvolve o projeto independente “Estou cá”, que resultou na exposição “Em Direto” (11/2011) e “É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros” (9/2012), ambas na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo.

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, atualmente cursa seu mestrado com orientação de Agnaldo Farias, enquanto oferece cursos livres e palestras de história da arte e workshops para artistas contemporâneos. Foi membro de júris diversos, como a seleção de artistas residentes da Casa Tomada, em São Paulo e do JA.CA, em Belo Horizonte; a programação de 2012 do Museu de Arte de Ribeirão Preto e o salão UNAMA de Pequenos Formatos em Belém, além do Prêmio EdP para jovens artistas, no Instituto Tomie Ohtake.


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