Posted by: guyveloso | 26 de August de 2012

Panorama das Artes no Pará mira o horizonte

Panorama das Artes no Pará mira o horizonte – Por Gil Sóter

Diário do Pará – 26.08.2012

http://www.diarioonline.com.br/noticia-216644-panorama-das-artes-no-para-mira-o-horizonte.html

 

Impregnada por signos de uma realidade ambígua, entre a floresta e o urbano, a produção nas artes visuais gestada no Pará é cada vez mais imprevisível. Experimentando linguagens múltiplas entre performance, fotografia, vídeo, escultura e pintura, o atual cenário artístico alcança diversos destinos. “Acho que Belém tem uma vocação para centro cultural. Isso é reconhecido por críticos, curadores e pela imprensa cultural do resto do país”, opina Alexandre Sequeira, artista que levou aos quatro cantos do mundo personagens de uma remota vila de pescadores do interior do Pará.

A série Nazaré de Mocajuba imprimiu em cortinas, toalhas de mesa e redes as imagens de seus donos: senhoras, crianças, homens, moradores do vilarejo onde Sequeira viveu como retratista da comunidade entre 2004 e 2005. Desse ponto de partida tão íntimo e peculiar, surgiu um trabalho universal, que já foi exibido na França, Bélgica, Reino Unido, China, Estados Unidos, Canadá, Cuba e Uruguai. “Apesar de guardar traços muito fortes de uma cultura amazônida, o trabalho trata de questões que têm a ver com o humano, por isso causa empatia nas mais diversas culturas. Nossa relação com nosso ‘duplo’, nossa imagem espelhada – encantamento que acompanha o homem desde os tempos mais remotos”,analisa Sequeira.

VISUALIDADE

É a partir da aldeia, portanto, que se atinge o global. “O trabalho parte de algum lugar. O clima, a paisagem, a história, são vários dados de uma visualidade que alimenta a percepção de quem produz e pensa esteticamente”, diz Marcone Moreira, nome em franca ascensão nas artes plásticas nacionais. Nascido no Maranhão, aos 15 anos mudou-se para Marabá. A atmosfera ribeirinha da cidade em crescimento inundou o olhar do artista que, aos 30 anos, já participou de exposições em Nova York, Espanha, França e Alemanha. Sua produção tem como forte referência a cidade em que vive: o uso de madeira de barcos, carrocerias de caminhão, portas de ferro, caixas de isopor, nylon de sacolas como matéria prima. “Trabalho com construções e junções de planos de materiais e cores, que aliam a delicadeza da arte construtiva com a rudeza de materiais descartados, lixo”,explica o artista,que traduz o que o cerca por meio de instalações, esculturas e fotografia. Busca por uma identidade contemporânea remonta aos anos 80 “Marcone é muito jovem e muito atuante internacionalmente.

Sabe se perceber não como quem parte de um lugar isolado, mas como quem sabe de sua relação com o mundo”, opina Marisa Mokarzel, pesquisadora e curadora. “Só é possível falar daquilo que se conhece. O meu universo está impregnado pelo meu sotaque, pelo que eu como, pela minha memória. Isso me acompanha onde quer que eu vá. Daí busco uma linguagem que me permita comunicar com o mundo”, diz Marcone. A multifacetada e ao mesmo tempo singela obra de Keyla Sobral também atrai interesse de diversas plateias pelo país. Atuante em mostras coletivas e individuais em São Paulo, Rio Grande do Sul e Belém, Keyla produz gifs animados, fotografia e ilustração. “Keyla vem constituindo um percurso de consistência ao longo de sua produção artística, na qual o desenho emerge como forma de relação com o ambiente em que se encontra, em um reflexo do seu estar no mundo e fruto de uma resposta atenta e ética a ele”, diz o artista e pesquisador Orlando Maneschy a respeito do trabalho da artista paraense, com obras atualmente em exposição no Museu de Arte da capital gaúcha.

ESTÉTICA

A busca por uma identidade contemporânea nas artes visuais paraenses foi fomentada na década de 1980, quando um seminário promovido pela Fundação Nacional de Artes provocou o estímulo dos artistas diante dos signos da cultura popular amazônica. “Isso demarcou a produção de toda uma geração, da qual podemos destacar Luiz Braga e Emmanuel Nassar”, pontua Orlando Maneschy, artista e pesquisador. Nassar, nascido em Capanema, evoca a cultura popular local nas cores vibrantes e formas geométricas das casas e de barracas de feira dos subúrbios.      Em 1998, Nassar realiza a instalação “Bandeiras”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Museu Estadual do Pará, na qual se apropria de 143 bandeiras de municípios paraenses, que são distribuídas pelas paredes dos museus. Em 1999, com a obra “Incêndio”, recebe o grande prêmio da 6ª Bienal de Cuenca, no Equador. Entre os maiores nomes da fotografia brasileira e 35 anos de carreira, Luiz Braga sagrou-se como fotógrafo documental. Com obras nos maiores acervos do mundo, além de vários prêmios no currículo, o paraense foi um dos artistas selecionados para representar o Brasil na 53ª Bienal de Veneza, em 2009.

Dono de um inquietante vigor criativo, Braga arrebata elogios com seu mais recente trabalho, “Nightvisions”, que usa infravermelho para fotografia noturna, resultando em imagens esverdeadas, de impressionante profundidade. “Quando um autor contemporâneo como Luiz Braga parte para realizar séries vibrantes como os ‘Nightvisions’, ele desconstrói a fotografia e a remonta a partir de seu próprio léxico que não responde mais aos códigos dos manuais de fotografia, mas sim a pulsão criativa que o trabalho pede”, diz Eder Chiodetto, um dos curadores mais requisitados na cena nacional. “Na fotografia, Belém é dos celeiros mais potentes que conheço”, declara o paulista, que destaca os trabalhos dos fotógrafos Guy Veloso e Alberto Bitar, ambos convidados para expor na Bienal das Artes de São Paulo, um dos eventos de arte mais importantes do planeta, além da obra de Miguel Chikaoka, nacionalmente reconhecido por sua atuação como arte educador e homenageado este ano pelo Prêmio Brasil de Fotografia. “A conquista desses espaços legitima uma produção consistente de artistas que possuem um nível de reflexão como não vejo igual em outros locais no Brasil. Acho que esse é só o começo. A fotografia paraense dessa geração toda está, por direito, se tornando uma forte e vigorosa referência da arte brasileira”.

PERFORMANCE

Para Orlando Maneschy, um dos aspectos que mais unifica a plural produção artística paraense é seu caráter autônomo. “A independência talvez seja a marca mais relevante. Como nosso sistema de artes não é pautado, essa adversidade se reverte: nossos artistas têm grande liberdade para desenvolver seus projetos, o que caracteriza um mergulho em questões particulares sem a pressão de um mercado que exige produção”, analisa o pesquisador.

Nesse amplo terreno para experimentar, a performance ganha destaque na cena. “A performance, em suas mais amplas potencialidades, orientada para a imagem tanto fixa, quanto em movimento, detém um campo especial em Belém”, frisa Maneschy. Não à toa, uma das artistas visuais paraenses de maior destaque nacional usa o corpo como suporte de sua arte. Perita criminal, Berna Reale realiza intervenções viscerais nas ruas de Belém, e ficou conhecida em 2009, durante uma de suas performances, “Quando todos calam”. Nua, deitada numa mesa na feira do Ver-o-Peso, coberta com pedaços de carniça, a artista atraiu os famintos urubus. A cena não tinha como passar despercebida. “Os policiais estavam muito temerosos. Achavam que eu seria atacada”. Os registros do trabalho da artista, que acaba de ser selecionada pelo programa Rumos do Itaú Cultural, circulam em vídeo ou foto pelo Brasil e também serão expostos em Londres. Também selecionada pelo Rumos com “Performações Urbanas”, a jovem Carla Evanovitch capta seus personagens em coletivos. Da mesma geração, Victor de La Roque atravessou cidades como Vitória, Brasília, Belém e Bogotá, na Colômbia, como com galinhas vivas amarradas ao corpo. A primeira performance de Armando Queiroz foi num mercado de carne, em 2003. Sua produção artística abrange desde objetos diminutos até obras em grande escala e intervenções urbanas, desdobrando questões sociais, políticas, patrimoniais e as questões relacionadas à arte e a existência. Sua obra já foi vista em países como Argentina e Portugal.

(Diário do Pará)

 


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