Posted by: guyveloso | 27 de November de 2012

Podia ficar olhando pra sempre essa foto de Guy Veloso – Do blog Sete Fotografia

Port/Engl (above)

Por Maíra Gamarra

http://setefotografia.wordpress.com/2012/11/01/podia-ficar-olhando-pra-sempre-essa-foto-de-guy-veloso/

A Hidra era um animal mitológico que possuía 07 cabeças de serpente (sendo uma delas imortal), corpo de dragão e seu sangue e seu hálito eram altamente venenosos. Habitava um pântano junto ao lago de Lerna, na região da Grécia. Era assustadora não apenas por sua aparência, mas principalmente pelo fato de que aqueles que tentavam matá-la acabavam aumentando o seu poder, dizia-se que se uma de suas cabeças fossem cortadas, outras duas voltavam a nascer no lugar. Criada por Hera (esposa de Zeus), foi um dos doze trabalhos de Hércules, que matou-a cortando suas cabeças enquanto seu ajudante queimava e cauterizava as feridas para impedir as cabeças de nascerem. A última e imortal foi enterrada.

A mitologia e suas narrativas alegóricas cheias de significados são uma tentativa de traduzir a sociedade, o homem e suas complexas relações e comportamentos. Os mitos e ficções apresentam e explicam as origens do mundo e o cotidiano e aventuras de Deuses, heróis, mortais e seres mágicos. Estratégias para transmitir e salvaguardar às futuras gerações as memórias, fatos, lendas e fábulas de uma cultura. Nisso se aproxima um tanto da fotografia, pois ambas criam e recriam histórias. Cheias de simbolismos sugerem verdades e entendimentos, traçam caminhos e perfis, apresentam universos possíveis e impossíveis, nos aproximam de mundos distantes e brincam com a noção de realidade. Contam-nos sobre o passado, o presente e futuro, universalisando temáticas tratam de assuntos que tocam a todos nós.

Nesta fotografia vejo duas crianças que se tornam apenas uma. Elas se fundem, se misturam e se completam, transformam-se em um único ser, mágico. A fotografia assume a vez da mitologia e transmuta essas crianças numa Hidra poderosa, com olhos que enxergam em todas as direções, que parece explodir e querer trespassar os limites do quadro. Ao meu ver essa imagem simboliza a dualidade do ser humano, a unicidade entre o bem e o mal, que diferentemente do que apregoa o cristianismo, pode ser entendida como um todo em que suas partes não necessariamente rivalizam, mas se alimentam. Ser bom e ser mal é necessário, é vital, as duas faces da mesma moeda. As crianças, como as da fotografia, inocentes e puras, são o melhor exemplo disso, em suas maldades e bondades deixam transparecer o que quando adultos tentamos esconder, em seus pequenos gestos e atos, de crianças, agem por impulso e são capazes de atrocidades e benevolências, dando vazão aos sentimentos que irrompem da alma.

Essa leitura ganha contornos mais sólidos se pensarmos que a imagem é de autoria do Paraense Guy Veloso, fotógrafo que desenvolve um vasto e primoroso trabalho documental  em torno da fé e das religiões, suas fotografias capturam as mais diversas manifestações religiosas brasileiras e inserem-se no chamado documentário imaginário*. São registros orgânicos e infiéis, imagens imprecisas e incertas, muitas vezes ambíguas, extraídas de algum lugar entre o universo do fotógrafo, a fé dos crentes e o misticismo das religiões. É fácil de encontrar em seus ensaios imagens que nos desestabilizam e se apresentam menos como documento fiel (aquilo que sabemos que a fotografia não é e não pode ser) e mais como sugestões para a nossa imaginação.

*Documentário imaginário é o termo cunhado para denominar o caminho que se abre dentro do universo mais amplo da fotografia documental contemporânea. É abordado no artigo de Kátia Lombardi para a Revista Discursos Fotográficos, que pode ( e deve!) ser lido neste link aqui.

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By Maíra Gamarra

http://setefotografia.wordpress.com/2012/11/01/podia-ficar-olhando-pra-sempre-essa-foto-de-guy-veloso/

The Hydra was a mythological animal that had 7 snake heads (one being immortal), a dragon body and its blood and breath were highly poisonous. It used to live in a swamp near the lake of Lerna, Greece. It was scary not only for its appearance, but mostly by the fact that those who tried to kill it ended up increasing its power, it was said that one of its heads were cut off, the other two returning born in place. Created by Hera (Zeus’ wife), it was one of the twelve labors of Hercules, who killed it by cutting its heads while his partner burned and cauterized the wounds to prevent the heads from birth over again. The last and immortal one was buried.

The mythology and its narratives full of allegorical meanings are an attempt to translate the society, man and his multifaceted relationships and behaviors. The myths and fictions present and explain the origins of the world and everyday life and adventures of gods, heroes, mortals and magical beings. These are strategies to safeguard and transmit to future generations the memories, facts, legends and fables of a culture. It approaches somewhat photography, since both create and recreate stories. Filled with symbolism, it suggests truths and understandings, draws paths and profiles, presents possible and impossible worlds, and brings us closer to distant worlds and play with the notion of reality. Tell us about the past, present and future, universalizing themes dealing with issues that touch us all.

In this picture I see two children who become one. They merge, blend and complement each other, transformed into a single being, magical. The picture takes the place of mythology and transmutes these kids into a powerful Hydra, with eyes that see in all directions, which seems to explode and pierce the boundaries of the frame. In my view this image symbolizes the duality of man, the unity between good and evil that unlike what Christianity preaches, it can be understood as a whole in which its parts do not necessarily struggle, but feed each other. Being good and being bad are needed, are vital, the two sides of the same coin. Children, like photography, innocent and pure, are the best example of this in their goodness and wickedness betray what adults try to hide in their small gestures and acts of children, act on impulse and are capable of atrocities and graces, allowing feelings to erupt the soul.

This reading takes stronger shape if we think that the image is authored by Guy Veloso photographer who develops a wide and exquisite documentary work about faith and religion. His photographs capture the Brazilian most diverse religious manifestations and fall the so-called imaginary documentary*. Those are organic and infidels records, uncertain and unclear images, often ambiguous, taken from somewhere between the photographer’s world, the faith of believers and the religion’s mysticism. It is easy to find in his essays images that destabilize us and show itself less as a faithful document (what we know that photography is not and cannot be) and more like suggestions to our imagination.

* Imaginary Documentary is the term coined to describe the path that opens within the broader universe of contemporary documentary photography. It is addressed in the article by Katia Lombardi for the Speeches for Photography Magazine, which can (and should) be read by clicking this link.

Versão [English version]  Marcio Rolim


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