Posted by: guyveloso | 15 de September de 2017

Exu

Exu. Tambor de Mina, Belém-PA (Amazônia), Brasil. Foto (c) Guy

Exu. Belém-PA (Amazônia), Brasil, 2015. (c) Guy Veloso. http://www.guyveloso.com

 

Texto crítico (Port/Francês):

Guy Veloso, entre documento e poesia.

© Matilde dos Santos, curadora, França, 2017.

Não se entra nas obras de Guy Veloso, somos aspirados por elas. “Pontuados”, como Barthes poderia ter dito, como se dessas imagens algumas flechas fossem atiradas em nossa direção, somos alvos de não se sabe bem qual imagem latente, invisível e ainda sim presente na obra.

Suas fotografias tratam de uma experiência da fé, o transe religioso, muito comum em práticas populares brasileiras, muitas vezes ligadas à herança africana, mas também presente nas novas religiões cristãs ou no catolicismo “profano”. O transe é uma experiência religiosa universal. Nós todos intuitivamente o podemos reconhecer e é isso o que torna as fotos de Veloso ao mesmo tempo tão familiares e tão estranhos.

Estas fotos são o resultado de um imenso trabalho de investigação quase antropológica feito pelo artista durante quase 20 anos. Em 2010, quando algumas imagens da série Penitentes foram exibidas na Bienal de São Paulo, Veloso já tinha 13 anos de pesquisa de campo e uma coleção formada por cerca de 20.000 itens incluindo negativos, slides, folhas de contato, impressões, objetos devocionais diversos, gravações áudio e vídeo. Arquivos preciosos; alguns dos grupos assim registrados não tardariam a se desagregar e outros são tão secretos que as práticas documentadas por Veloso, eram conhecidas apenas pelos iniciados. O rigor, e o lado obsessivo desta documentação impressionam. Veloso fotografou os mesmos sujeitos durante anos, incansavelmente retornou aos mesmos locais, mas também descobriu novos lugares e chegou a ser incorporado em algumas sociedades secretas.

E, no entanto, suas imagens vão muito além do seu valor meramente documental. Sua abordagem muito contemporânea é definida na tensão entre poesia e documentação. Se Veloso se documenta extensa e amorosamente previamente, o resultado não é a captura de uma realidade, mas a produção de um imaginário que permite a irrupção do real. Não faz como na fotografia documental um recorte do real nem busca expressar um ponto de vista. Suas obras convocam com os fotografados e o espectador, um imaginário do qual emerge o real em forma de imagen. Não são obras sobre o transe, mas obras-transes.

Tecnicamente Veloso coleta sinais, detalhes e fragmentos. Fotografa de muito perto, em virtude de uma necessidade técnica (Veloso usa lentes de 35mn) e artística: o artista precisa desse corpo a corpo com o sujeito. Esta proximidade resulta em imagens em movimento, com a câmera quase à tocar o corpo em transe. A oposição tremido-nitido produz efeitos dinâmicos, particularmente adequados aos movimentos do transe. A proximidade física é possível graças à uma grande intimidade construída ao longo de sua abordagem lenta, respeitosa, que o levará por vezes a esbater as fronteiras entre o fotógrafo e o fotografado. O resultado é um verdadeiro transe fotográfico que se revela em cores febris, enquadramentos dramáticos e um requinte formal inegável.

A poesia ocorre na emoção compartilhada entre o sujeito que se abandona ao transe, o público que recebe o “punctum” e o artista cuja implicação física e espiritual ao fotografar é palpável, uma emoção de duração prolongada, pois, trabalhando exclusivamente com o analógico, o processo de criação de imagem inclui todas as fases do desenvolvimento da película até à seleção de imagens para impressões e inclui, portanto, inevitavelmente diversas temporalidades.

A poesia ocorre exatamente nessa relação poderosa com a temporalidade. Veloso é um contador de histórias. Sua narrativa desenrola o fio de uma realidade outra, ao mesmo tempo em que se destaca com grande mestria do efeito realidade da fotografia. Mergulhamos assim em uma experiência poética que convoca tanto o frenesi do êxtase religioso quanto a reflexão e o distanciamento.

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Guy Veloso, entre document et poésie

© Matilde dos Santos, commissaire, France, 2017.

 

On ne rentre pas dans les œuvres de Guy Veloso, on y est happé. « Ponctué » aurait pu dire Barthes, comme si ces photos décochaient des flèches, qui nous impactent. Nous sommes des cibles d’on ne sait pas exactement quelle image latente, invisible et pourtant portée par l’œuvre.

Ses clichés font appel à une expérience de la foi, la transe religieuse, très courante dans des pratiques populaires brésiliennes, souvent en lien avec l’héritage africain, mais présente aussi dans les religions chrétiennes ou encore dans le catholicisme « profane ». Très profondément, la transe est une expérience religieuse universelle. Nous la reconnaissons tous intuitivement et c’est bien cela qui rend les clichés de Veloso à la fois si familiers et si étranges.

Ces photos sont le fruit d’un immense travail de recherche quasi anthropologique effectué par l’artiste durant presque 20 ans. En 2010, quand des photos de la série Pénitents ont été exposées à la Biennale de Sao Paulo, cela faisait 13 années de recherches sur le terrain, et une collection formée par environ 20 000 items entre négatifs, diapositives, planches contact, impressions, objets votifs divers, enregistrements audio et vidéo… Des archives précieuses, quelques-uns des groupes ainsi enregistrés ayant disparu depuis et d’autres étant si secrets que les pratiques documentées par Veloso, n’étaient connues que des seuls initiés. La minutie, le côté obsessionnel de cette documentation impressionne. En effet, Veloso photographia les mêmes sujets des années durant, revint inlassablement sur les mêmes lieux, en découvrit d’autres et finit par être incorporé dans certaines sociétés secrètes.

Pourtant ses photos dépassent largement leur seule valeur documentaire. Sa démarche très contemporaine se définit dans la tension documentation-poésie. Si Veloso se documente longuement, amoureusement en amont, le résultat n’est pas la capture d’une réalité. mais la production d’un imaginaire qui permet l’irruption du réel. Il ne s’agit pas, comme dans la photo documentaire, de faire un découpage du réel, ni même d’exprimer un point de vue. Sa photo cherche plutôt à convoquer avec le sujet et le regardeur un imaginaire d’où jaillira le réel sous forme d’image. Ce ne sont pas des œuvres sur la transe, mais des œuvres-transes.

Techniquement Veloso collecte des signes, des détails, des fragments. Il photographie de très près, exigence à la fois technique (Veloso utilise un 35 mn) et artistique, l’artiste ressentant le besoin d’un corps à corps intense avec son sujet. De cette proximité résulteront ces clichés en plein mouvement, la camera quasiment posée sur les corps en transe. L’opposition flou-netteté produit des effets dynamiques, particulièrement adaptés à la transe. La proximité physique est rendue possible par une grande intimité construite via une approche lente, respectueuse, et qui va parfois l’amener à brouiller les frontières entre le photographe et le photographié. En résulte une véritable transe photographique. En résultent des couleurs fébriles, des cadrages et des hors-cadres dramatiques et un raffinement formel indéniable.

La poésie se produit dans l’émotion partagée entre le sujet abandonné à la transe, le public qui reçoit le « punctum », et l’artiste dont l’engagement physique et spirituel lors de la prise de vue est palpable, une émotion qui se prolonge dans la durée, car, travaillant exclusivement avec l’argentique, le processus de création de l’image inclue toutes les étapes du développement du film jusqu’au choix des impressions et donc forcément plusieurs temporalités.

La poésie se produit exactement dans ce rapport puissant à la temporalité. Veloso est un conteur. Sa narration dévide le fil d’une réalité autre tout en se détachant avec grande maîtrise de l’effet de réalité produit par la photographie. Nous plongeons alors dans une expérience poétique qui convoque aussi bien. un état de ravissement proche de la frénésie de la transe que la réflexion et la distanciation.

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