Posted by: guyveloso | 22 de August de 2017

Guy Veloso. Fotografia / Brazilian documentary photographer

(c) Guy Veloso. Rio de Janeiro, março 2017. www.guyveloso.com

Guy Veloso. Rio de janeiro-RJ, 2017. 

 

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Críticas / critics

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Posted by: guyveloso | 17 de August de 2015

Críticas/Critics

Série Penitentes (29a Bienal de SP). Guy Veloso

Guy Veloso. Série “Penitentes” (2002-2019), Ritual de autoflagelação, Juazeiro-Bahia, 2014. Digital / Self-flagellation ritual, Bahia-Brazil, 2014.

 

CRÍTICAS/critics  (ENGLISH below ):

Já não é o corpo tomado, mas o próprio corpus de imagens que se transfigura em olhar. Daí, a experiência da arte de Veloso ser o encontro com um corpus em êxtase – Paulo Herkenhoff. Texto do catálogo da mostra Pororoca, MAR-Museu de Arte do Rio, 2014.

Fica transparente esta relação ambígua entre o que é devoção e o que é violência – Moacir Dos Anjos, curador, programa Artes Visuais Brasil, SESC TV, 2011.

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Guy Veloso. Série “Penitentes”. Ritual de autoflagelação, zona rural de Juazeiro-Bahia, 2014. Digital.

A obra de Guy Veloso prima pelo trabalho com a luz. (…) Suas fotografias exploram gestos e feições limítrofes, muito próximas do esgotamento físico, da dor, do delírio e da paixão – Paulo Miyada, curador, catálogo Penitentes.

Este ano Arte Pará homenageia o artista Guy Veloso com sua obra dedicada aos encontros da fé. Sua câmera é tenaz na busca por imagens da rica diversidade religiosa brasileira das diferenças e as convergências. Um tempo de insidiosa intolerância das doutrinas fundamentalistas no Brasil e no mundo, Guy Veloso aposta na arte como lugar como lugar de diálogo e de entendimento para a construção do respeito devido por todos a cada um. Nessa compreenção podem estar soluções para a humanidade” – Paulo Herkenhoff, texto curatorial, Arte Pará 2014 (artista homenageado).

Penitentes anjo documentaryphotography

Guy Veloso. Série “Penitentes”. Ouro Preto-MG, 2010. Diapositivo.

É impossível não intuir o cheiro da poeira e da terra pisadas pela multidão, o clamor de benditos e ladainhas elevando-se das imagens dramáticas e sofridas. (…) É o retrato granulado de uma redenção que não se consuma, de um Purgatório que continua ardendo, de um fim dos tempos que não se acaba – José de Souza Martins, sociólogo, Zum – Revista de Fotografia, Instituto Moreira Salles, 2012. Leia texto na íntegra.

As fotografias de Guy Veloso situam-se nesse universo no qual se interpõe invisíveis imagens e a estética por ele proposta se faz reconhecer – Marisa Mokarzel, curadora. Leia texto na íntegra.

 Guy Veloso apresenta as suas fotografias de fé. Não uma fé dogmática ou sistemática, mas a que transparece em imagens surreais e fascinam pelo desconforto que nos causam – Simonetta Persichetti, O Estado de São Paulo, 20.09.2010.

Transladação, procissão noturna na véspera do Círio de Nazaré, Belém-Pará. Diapositivo (analógico).

Guy Veloso. Série “Êxtase”. Trasladação do Círio de Nazaré, Belém-PA, 2010. Slide.

Guy Veloso faz o trânsito entre fotografia documental clássica e ‘documental imaginário’. É uma nova força da fotografia documental brasileira que começa a despontar para o mundo – Eder Chiodetto, curador e fotógrafo, Revista Photo Magazine, no.41, 2012.

As imagens de Guy Veloso surpreendem pelo non sense, pelo surreal, pela completa dissonância entre o mundo real e o outro mundo – Rubens Fernandes Júnior, curador.

 Interessante um certo desconforto, um certo estranhamento que  provocam – Paulo Máttar, artista plástico e curador.

As imagens de Guy Veloso captam um momento no tempo em que a fé, a consciência e o corpo se tornam um através de rituais. A documentação fotográfica dos rituais interrompe nossa realidade urbana contemporânea, convocando outra realidade mais antiga para a ação no final do mundo. Ao experimentar a realidade de Veloso nos tornamos penitentes, embora de diferentes hemisférios – Maruca Salazar, curador, Museo de las Americas, Denver-CO, EUA, 2017.

Veloso nos conduz por um país estranho, fascinante e sensual – Orlando Maneschy, fotógrafo e pesquisador.

Guy Veloso fotografia documental documentary photography

Guy Veloso. Ano-novo, Florianópolis, 2010. Cromo.

A fotografia de Guy Veloso nasce de sua discrição em infiltrar-se e cultivar intimidades – Catálogo da 29ª Bienal de São Paulo/2010. Leia texto na íntegra.

Penitentes de Guy Veloso reúne imagens com uma força que transcende a fotografia –Revista ARTE!Brasileiros, no. 07, Guia da Bienal, 2010.

A obra de Guy Veloso prima pelo trabalho com a luz. Com cores saturadas e vibrantes, suas fotografias resistem a entregar-se ao gozo pleno dos jogos cromáticos, fazendo com que sua paleta de cores acobreadas se revele através de uma densa sombra. Tal negrume, que empresta uma aura noturna mesmo para imagens captadas sob o sol do meio-dia, encobriria por inteiro seus cromos, não fosse pelo jogo de fontes de luz e pelos anteparos que a refletem e matizam sua coloração. É significativo, portanto, que esses anteparos sejam, no mais das vezes, corpos engajados em ritos de crença que são, eles mesmos, atos de busca por alguma espécie de iluminação (…)  – Paulo Miyada, curador, texto da mostra “É preciso confrontar as imagens vagas com os gestos claros”, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo-SP, setembro de 2012). Leia  na íntegra.

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Guy Veloso. Autoflagelação. Penitentes. Tomar do Geru-Sergipe, 2007. Digital.

A fotografia de Guy Veloso desdobra-se em ângulos de captura da cena de exercício da fé. O conjunto transita entre a interioriridade do ser, o êxtase e o corpo em estado de  sublimação. Se é possível rezar sem entender as palavras (Derrida), em Veloso o espectador, não importa sua religião, comunga dos momentos de encontro com o sagrado. Contra as primazias e fundamentalismos religiosos, o artista aponta para a etimologia da palavra religião e a ideia de “religar” os homens acima de seus conflitos – Paulo Herkenhoff, catálogo 31º Arte Pará/2012 (artista convidado).

As cenas existem, mas a imagem, a estética é própria de Guy Veloso que potencializa o real lançando-o no limite do medo – Marisa Mokarzel, curadora.

É neste universo múltiplo e complexo que Guy lança um olhar que vai além das características de cada religião presentes na vida cotidiana dos brasileiros – Joana Mazza, curadora.

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Guy Veloso. Ritual de Candomblé, Belém-PA, 2010. Slide.

Guy Veloso mergulha na alquimia e na espiritualidade para representar um nível de conhecimento mais sutil. Ele torna o invisível visível – Claudia Buzzetti, curadora e Patricia Gouvêa, curadora e fotógrafa, texto da exposição Alquimia, 2010.

No Vale do Amanhecer, fiéis se vestem como reis e rainhas. Guy Veloso extrai dessa devoção alegórica um preto e branco faiscante, luz que estoura os limites da fotografia e parece descascar a película até o pó de prata. Veloso registrou homens e mulheres de um dos templos da doutrina. Olhos abertos formam um contraponto entre a crueza da fotografia e a teatralidade barroca da comunidade religiosa. São olhares em êxtase que ultrapassam os limites desse claro-escuro, numa vertigem quase colorida – Silas Martí, Sobre a 18ª edição da Coleção Pirelli-MASP, Jornal Folha de São Paulo, 2010.

Há uma ambiguidade de sentido na representação dos homens encapuzados quando comparados aos violentos Ku-Klux-Klan, ao emblemático Chador das mulheres muçulmanas e aos sequestradores contemporâneos que evocam o clima de insegurança tão presente no mundo globalizado – Angela Magalhães e Nadja Peregrino, curadoras (texto do catálogo da mostra Un Certain Brasil, Pinghyao Festival, China, 2010).

Fotografia documental documentary photographyGuy Veloso. Ritual de Candomblé, Belém-PA, 2011. Digital.

A arte de Guy Veloso está em retransmitir sinais febris de uma horda encantada com a fé. É um documento de sua alma incansável e humanista em nos brindar nessa itinerância militante da fé – Walter Firmo, fotógrafo, 2004.

As fotos (de Guy Veloso) são documentos sem serem documentais. São arte fotográfica de expressão pessoal e independem do episódio. Revelação sensível e visível do imaginário universal. O êxtase da devoção tornado contemplação estética da imagem – João de Jesus Paes Loureiro, poeta, 2017.

O primeiro passo para fotografar um tema complexo como o das seitas religiosas é não ter seus dogmas e crenças próprias como um parâmetro para julgar a fé alheia. Só assim o fotógrafo estará apto a perceber as sutilezas ocultas nas diversas camadas simbólicas de uma crença. Guy Veloso se manteve nessa busca por mais de uma década até seus registros romperem com o padrão clássico do documentarismo para mergulhar numa estética renovada, na qual ele nos coloca em contato com uma nova ordem de dimensões. As imagens se tornam, assim, orgânicas. É como se não estivéssemos mais vendo fotografias ‘sobre’ algo mas a coisa em si. Por vezes é necessário experimentar, expandir a linguagem, romper com os manuais, para que o realismo irrompa com maior contundência – Eder Chiodetto, curador e fotógrafo, livro “Geração 00 – A Nova Fotografia Brasileira”, 2013.

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Guy Veloso. Série “Penitentes”. Juazeiro-Bahia, 2014. Digital.

Expoente do movimento testemunhal do Brasil, a obra de Guy Veloso resgata boa parte daquelas questões que fazem a identidade dos povos da América Latina. Na Argentina começou a ser conhecido por sua inclusão mostra “Imagens deste lado do Mundo” para a Red Cultural del Mercosul em 2007. Guy se integra a nova geração de autores testemunhais brasileiros seduzidos pela idéia de levar adiante um registro subjetivo e comprometido com um dos aspectos mais relevantes da cultura brasileira e, por extensão, a latino-americana, que se refere às práticas religiosas populares. Isto o conduziu a ser reconhecido em seu país e no exterior, com uma obra sólida, reveladora e com grandes valores estéticos – Revista Fotomundo, Argentina, 2008.

 Imagens onde a técnica, mesmo muito presente, se dilui deixando o sensível se apresentar com toda sua força. Exercício de imagética carregado de subdivisões, a obra de Guy, lembra uma cebola, repleta de camadas, uma fotografia onde o mais instigante e valioso está em camadas inferiores, invisíveis a uma primeira sacada apresada e ansiosa, uma obra para corações calmos, fortes, e olhos atentos que permitam um contato com o que está dentro da foto, deixando o epitélio da imagem somente como figura de convite, que nos convidam de forma muito convincente – Marco Antonio Portela, fotógrafo e curador.  Texto na íntegra.

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Guy Veloso. Penitentes, Nossa Senhora das Dores-SE, 2002. Slide.

A fotografia de Guy Veloso possui uma relação direta com a performance. Mesmo que intimamente empenhados em seu ritual, há um quê de performático nestes homens e mulheres amortalhados, um desejo de exteriorizar formalmente sua crença. A metáfora do transe da fé de Veloso, faz uso da atividade do olhar como representação dos movimentos do mundo, enfatizando que o fotógrafo também pode vir a ser um performer a partir do momento em que seu ato artístico penetra na intimidade dos crentes e se junta a eles em um só cortejo, literal e  simbolicamente, resultando em imagens repletas de significados e representações – Cinthya Marques, graduada em artes visuais e pesquisadora, sobre “Penitentes”.

O fotógrafo parece ser parte da situação, sem lançar um olhar estrangeiro sobre ela. Cores, contrastes e pontos desfocados evidenciam o aspecto imaginário da festa (Candomblé) – Jornal O Globo, 23.07.2012.

Mostra o candomblé com representações orgânicas, instáveis e cheias de movimento, como quem observa de dentro do acontecimento – Eder Chiodetto, curador, Jornal O Globo, 23.07.2012.

Seu propósito certamente não é desvelar o oculto, é fazer com que penetremos caminhos que tantos fizeram antes de nós – Armando Queiroz, artista plástico e curador, texto da exposição Êxtase, 2012. Texto na íntegra. 

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Guy Veloso. Festival de Exu, Umbanda, Belém-PA, 2011. Slide.

Qual a fronteira entre a fotografia documental e a artística? Com Robert Capa, já não se podia traçar a linha, e com Guy Veloso também não é simples. No entanto, recentemente, o trabalho do paraense foi vetado por um importante site por supostamente não se tratar de arte. Seu apuro formal, as cores febris e o enquadramento dramático realçam a expressão, mais do que a informação, mas nem por isso convenceu a todos os críticos. Podemos inferir que tal rejeição se deva ao fato de Guy Veloso aparentemente aderir à religiosidade que retrata, em vez de analisá-la com olhar crítico. O transe fotográfico de Veloso concilia-se com o transe religioso, levantando uma questão que não é apenas teológica. A arte deve nos convidar a um estado de enlevo, como o frenesi do fiéis, ou a um olhar reflexivo, de uma distância estratégica? Ou, talvez, ambos, simultaneamente? – Rafael Campos Rocha, Revista DAS ARTES, Ed. Outubro de 2010.

Guy Veloso talvez tenha deixado a fotografia. Ou talvez tenha ido buscá-la em outras formas de encarnação, em manifestações mais sincréticas, mais impuras, como tantas entidades sagradas – Ronaldo Entler, crítico e escritor (sobre a instalação “Mortalhas”).

Fotografia documental documentary photography Latin American

Guy Veloso. Vale do Amanhecer, Planaltina-DF, 2014. Digital.

A fotografia aqui atende a duas premissas muito caras à produção contemporânea: o poético e a documentação. Seu discurso imagético é uma navegação por manifestações populares do Brasil profundo – Michel Pinho, historiador e fotógrafo. Leia texto na íntegra.

Em Veloso, vemos como, através do corpo, instaura-se a presença de vibrações intensivas intempostíveis, a partir da devoção e da crença religiosa – Isabel Diegues, no livro Outras Fotografias na Arte Brasileira Séc. XXI, editora Cobogó, 2015.

O transe, o movimento do corpo, a movimentação do grupo de onde a cena emerge e, rapidamente imerge, o ato social. Tudo é motivo de atenta investigação que ultrapassa o mero documentar – Armando Queiroz, curador-assistente do 33º Arte Pará (sobre mostra “Entre dois mundos: Pierre Fatumbi Verger e Guy Veloso”). Leia texto na íntegra.

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Guy Veloso. Penitentes, Juazeiro-Bahia, 2015. Digital.

A palavra religião vem do verbo latino religare, que significa religar os homens. Então se essa palavra, se essa força, se essa junção, se essa crença que é a fé pode trazer paz às pessoas, que voltemos à sua origem etimologia no sentido de conectar, e não de separar as pessoas. E ao mesmo tempo insistir que todos devemos respeitar a religião de cada um. No caso das religiões afro-brasileiras, esta violência está extremamente exacerbada, é algo que remonta a momentos obscuros da sociedade ocidental que é impor através de métodos sejam eles psíquicos, políticos, físicos etc. uma idéia sobre o outro. E ao mesmo tempo pensar que a tarefa dos que querem um mundo mais democrático é não só trazer essas religiões afrodescendentes à visibilidade, mas compreender que elas – como Verger compreendeu, como Rubens Valentim – não estão no campo do folclore, elas não estão no campo da superstição, mas elas estão no campo dos valores, os mesmos que ligam as pessoas – Paulo Herkenhoff (pronunciamento na abertura do 33ª Arte Pará, sobre Guy Veloso, artista homenageado – vídeo).

Fotografar temas complexos, como o das seitas religiosas, implica não fazer juízo de valor. Só assim o fotógrafo pode perceber as sutilezas oculta nos simbolismos de uma crença. Guy Veloso rompe o padrão clássico do documentarismo para representar o transe da fé. A experimentação leva o artista a buscar sintonia com seu referente. Ao expandir a linguagem, arriscar-se em seus limites e romper os manuais, realismo e imaginário parecem encontrar um ponto de equilíbrio da representação – Eder Chiodetto, curador, exposição Documental Imaginário, Oi Futuro, Rio de Janeiro-RJ, 2012.

(Penitentes) Ao longo do período de documentação, o fotógrafo ganhou a confiança dos adeptos, conseguindo registrar cem grupos em momentos de profunda introspecção dos devotos, em condições de luz escassa que pouco iluminam suas práticas madrugadas adentro – Rosely Nakagawa, curadora especializada em fotografia, Revista Brasileiros, 2010.

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Guy Veloso. Festa de Exu. Ritual de Tambor de Mina, Belém-PA, 2013. Digital.

Dentre eles, o que flerta mais assumidamente com uma fotografia identificada com os valores modernos é, sem dúvida, o Teatro do Tempo, de Guy Veloso, mas ainda assim insere pequenos ruídos que fogem desse molde, quando foca num detalhe isolado ou percebe o lugar como um espaço de encenação do tempo, sugerido pelo título – Mariano Klautau Filho,  Catálogo do Prêmio Diário Contemporâneo (sobre o ensaio O Teatro do Tempo, 2015).

Guy Veloso realiza cuidadosa negociação prévia, pois só consegue fotografar sentindo-se aceito pela comunidade. Em seus trabalhos autorais utiliza apenas lentes 35mm, pois pretende chegar bem perto das pessoas envolvidas, conhecendo de maneira íntima o fato por trás da lente. Para que isso ocorra, cria um canal de negociação com os sujeitos envolvidos, estabelecendo assim nesse percurso a estética relacional – Heldilene Guerreiro Reale, Dossiê, Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 27 | dezembro 2013.

O fotógrafo parece ser parte da situação, sem lançar um olhar estrangeiro sobre ela. Cores, contrastes e pontos desfocados evidenciam o aspecto imaginário da festa – Audrey Furlaneto, jornal O Globo (sobre fotos de Candomblé na exposição Documental Imaginário, Oi Futuro, Rio de Janeiro-RJ), 23.07.2012.

Nos corpos performáticos, o sagrado se materializa, não importa a religião. No claro ou no escuro, há vida. E sempre a poesia, mesmo na mais perturbadora das imagens. Vejo o transe fotográfico – Tyara De La-Rocque, jornalista cultural, para a Revista Benjamim, julho de 2015.

O fotógrafo Guy Veloso, que há vários anos se dedica a registrar cultos e festividades religiosas Brasil afora, reconhece no transe uma complexidade que escapa às palavras e que, por isso mesmo, ele tenta transmitir por meio de imagens captadas em momentos de verdadeiro fervor – Jocê Rodrigues, Revista da Cultura, 10/07/2015.

Um transe entre o documental e o espiritual, onde eu me sinto em uma intimidade absurda e proibida com o outro – Ana Luiza Gomes, Blog Andarilha, 2015.

Veloso se envolve com os ritos profundamente e, portanto, consegue extrair todo potencial imagético que resulta numa representação polissêmica e mágica.” – Anna Carvalho, blog OLD.

Exu. Tambor de Mina, Belém-PA (Amazônia), Brasil. Foto (c) Guy

Guy Veloso.Tambor de Mina, Belém-PA, 2015.

“Não são obras sobre o transe, mas obras-transes” – Matilde dos Santos, curadora. Texto completo (port/fr).

“Guy Veloso fotografa sem recursos de aproximação ou otimização, e reserva às possibilidades do corpo a maior condicionante daquilo que deseja obter na imagem. Eventos religiosos e espirituais, como o Círio de Nazaré, no Pará, e a festa da Nossa Senhora da Boa Morte, na Bahia, já renderam extensas séries” – UOL Entretenimento, 29a Bienal de SP, 2010.

“Penitentes por Guy Veloso reúne imagens com tal força que transcende a imagem” – revista ARTE Brasileiros!. De julho de 2010.

“Imagens de Guy Veloso surpreendido por absurdo, por surreal, pela dissonância completa entre o mundo real eo outro mundo” – Rubens Fernandes Junior, curador.

“Há uma ambigüidade de significado na representação dos homens mascarados quando comparado com o violento Ku Klux Klan, ao chador emblemática de mulheres muçulmanas e os sequestradores contemporâneos que evocam a atmosfera de insegurança tão presente no mundo globalizado” – Angela Magalhães e Nadja Peregrino, curadoras.

“Guy Voso entrou no universo particular dos Penitentes, como ele foi considerado um deles, sem necessariamente comunhão de práticas religiosas nos rituais. (…) Guy teve acesso a informações secretas que o grupo nunca ter permitido a outros fotógrafos “- O penitente, Tyara de La-Rocque, Jornalista.

“Oposto a Mefistófeles, o demônio erudito de Goethe, Guy Veloso se veste como arcanjo. O corpo não é suficiente para ele, ele quer capturar e revelar a alma dos penitentes. Para uma boa finalidade. Mesmo para um ateu como eu, não é difícil identificar almas que pairam em cada quadro. Almas de cor, almas em preto e branco. Guy Veloso é também um conjurador ao contrário: em constante processo, cria e recria realidades de irrealidades” – The Art of Capturing and Revealing Body and SoulCarcara Photo Art.

 ENGLISH —

“It’s obvious the ambiguous relation between devotion and violence” – Moacir dos Anjos, curator, Visual Art Brasil Program, 29ª Especial Biennale of Sao Paulo, 2nd part, SESC TV, 2011.

“Guy Veloso shows his photos of faith. Not a systematic or dogmatic faith, but those ones who transpire in surreal images and fascinate us by the anxiety” – Simonetta Persichetti, O Estado de São Paulo. Sep. 20th 2010.

Exu. Belém-PA (Amazônia), Brasil. Foto Guy Veloso / www.guyvelos

Exu. Foto Guy Veloso. Belém-PA, 2011. Slide.

 

“Guy Veloso’s images capture a moment in time where faith, consciousness, and cuerpo become one through rituals. The photographic documentation of the rituals disrupts our contemporary urban reality, summoning another more ancient reality to action at the world’s end. As we experience Veloso’s reality, we become penitents ourselves albeit from different hemispheres” – Maruca Salazar, curator, Museo de las Americas, Denver-CO, 2017.

In Veloso, we see how, thought the body, the presence of imperceptible intense vibrations based on devotion and religious belief is established – Isabel Dieges, curator, book Other Photographies in Brazilian Art 21st Century

“His photographs stand to indulge to the full enjoyment of the chromatic game, making his coppery color palette proves through a dense shadow. Such darkness, which offers a nocturnal aura, even for images captured under the blazing sun of noon, would cover up the whole colors, not for the sources of light and shields that reflect and tint its coloring” –Numinous Gestures, Paulo Miyada, curador (text).

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Guy Veloso. Yao de Ewá, Candomblé (african-american ritual), Ananindeua-PA (Amazon), Brazil, 2015. Digital.

“Guy Veloso photos invite to a fallacious experience. The call always seems to matter, but the speech itself is always the color as the virtual tone” – Paulo Herkenhoff, curator and art Critic.

“Guy Veloso journeys between classical documentary photography and ‘imaginary documentation’. It is a new force of Brazilian documentary photography that begins to emerge into the world” – Eder Chiodetto, curator, Photo Magazine, 42, 2012.

“Guy Veloso’s photography was born of his discretion in infiltrating and cultivate intimacy. He use modest equipment, with no optimization or approximation resources of what his naked eye can capture; reserves to the possibilities of the body, its meetings, attachments, errors and wanderings, the biggest determinant of what aims to establish over the image form. In return, the artist wins naturalness and spontaneity from the people, and creates a map that alternates documentary rawness, ambiguity and fantasy (…). The images associate moments of sacrifice and pain of the people in times of worship and entertainment. As a photographer in practice, they open and demystify these hidden ideas and give in return to the public of the Biennial reflection and responsibility for any kind of stigma” – Catalogue of 29th Biennale of São Paulo.

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Guy Veloso. Série “Penitentes”, Salvador-Bahia, 2004.Slide.

“What is the border between documentary photography and art? With Robert Capa, one could no longer draw the line, and Guy Veloso is not that simple. However, recently, Guy’s work was prohibited by an important website for allegedly not being art. Its formal precision, febrile colors and dramatic framing enhance the expression, more than information, but not so convinced all critics. We can infer that such rejection is due to the fact that apparently Guy Veloso to join the portrayed religion, instead of analyzing it with a critical eye. Veloso’s photographic trance reconciles himself with the religious trance, raising a question that is not just theological. Art should invite us to a state of rapture, as the frenzy of the people, or to a reflective look of a strategic distance? Or perhaps both simultaneously?” – Rafael Campos Rocha, DAS ARTES Magazine, Ed. October, 2010.

“Penitentes by Guy Veloso gathers images with such strength that transcends the picture” – ARTE!Brasileiros magazine. July, 2010.

“The first step to shoot a multifaceted subject, like that of religious sects, is not to have their own dogmas and beliefs as a parameter to judge a person’s faith. This is the only the photographer will be able to understand the subtleties hidden in several symbolic layers of a belief. Guy Veloso remained in this quest for over a decade until his work break the classical pattern of documentaries to dive in a renewed aesthetic, in which he puts us in touch with a new range of dimensions. The images thus become organic. It is like we were not seeing photos anymore ‘about’ something but the thing itself. It is sometimes necessary to experiment, expand the language, breaking with the manuals, so that the realism erupt with greater forcefulness” – Eder Chiodetto, curator, the text for the exhibition “Generation 00″ , Belenzinho SESC , Sao Paulo -SP , 2011.

“Guy Veloso’s images surprised by nonsense, by surreal, by the complete dissonance between the real world and the other world” – Rubens Fernandes Junior, curator.

“Kind uncomforting and interesting estrangement, certain strangeness it causes” – Paulo Máttar, artist and curator.

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Guy Veloso. Série “Iemanjá”. Belém-PA, 2014. Slide.

“There is an ambiguity of meaning in the representation of the masked men when compared to the violent Ku Klux Klan, to the emblematic chador of Muslim women and the contemporary kidnappers that evoke the atmosphere of insecurity so present in the globalized world” – Angela Magalhães and Nadja Peregrino, curators.

“Veloso leaded us to a different, fascinating and corporeal world” – Orlando Maneschy, photographer and researcher.

“There are the scenes, but the image, the aesthetic is Guy Veloso himself that leverages the real gathering to the edge of fear” – Marisa Mokarzel, curator.

“Guy Veloso’ work consists in give febrile signals from a horde delighted with the faith. It is a document of his tireless and humanist soul by offering us this militant faith” – Walter Firmo, photographer and curator, FotoArte Brasília catalogue, 2005.

“Opposed to Mephistopheles, Goethe’s erudite demon, Guy Veloso dresses as archangel. Body is not enough for him, he wants to capture and reveal the penitents’ soul. For a good purpose. Even for an atheist like me, it is not difficult to identify souls that hover in each picture. Souls in color, souls in black and white. Guy Veloso is also a conjurer in reverse: in constant process, he creates and recreates realities of unrealities” – Carcara Photo Art 07, 2016. 

“He represents, through his work, the identity of his country and the birth certificate of the inhabitants of cities he traveled over, revealing their customs and traditions of each region” –  Elda Harrington, curator.

Exu. Belém-PA (Amazônia), Brasil. Foto Guy Veloso / www.guyvelos

Foto Guy Veloso. Umbanda, Belém-PA, 2011. Slide.

“This is the multiple and complex universe that Guy takes a look beyond the characteristics of each religion to the Brazilians daily lives” – Joana Mazza, curator.

“Promoter of the witness movement in Brazil, the work of Guy Veloso rescues most of those issues that make the identity of Latin America people. He started to be known in Argentina by his show so-called “Images on this side of the World”, curated by Elda Harrington for Red Cultural del Mercosur in 2007. Guy integrates the new generation of Brazilian authors seduced by the idea of carrying out a subjective and committed record to one of the most important aspects of Brazilian culture and, by extension, Latin American, which refers to the popular religious practices. This led him to be recognized at home and abroad, with a solid work, revealing large and aesthetic values – Fotomundo Magazine, Argentina, 2008.

“The photo maker seems to be part of the situation, without put a foreign look upon it. Colors, contrasts, and diffused pixels enhance the imaginary characteristic of the Candomblé (African-brazilian religion)” – O Globo Newspaper, July, 23rd, 2012.

“(Veloso) shows Camdomblé in an organic representation, instable and full of moving, like the one who sees it from inside” – Eder Chiodetto, curator, O Globo Newspaper. July, 23rd, 2012.

 

Guy Veloso entered into the private universe of Penitents, like he was considered one of them, without necessarily commune of religious practices in the rituals. (…) Guy had access to secret information that the group have never allowed to other photographers – “The Penitent”, Tyara de La-Rocque, Journalist (text).

If, in the beginning we detect a classic documentary maker spinning around his own object, as the years pass by with accumulated knowledge and intimacy, Guy’s photography has stopped representing the rituals and started presenting them – Eder Chiodetto, curator, Ipsis Collection of Brazilian Photography, book, 2017.

“Guy Veloso’s photography has a straight relationship to the performance. Even closely engaged in their ritual, there is something performative in these shrouded men and women, a desire to formally express their belief. Veloso’s trance of faith metaphor takes the activity of looking as a representation of the movements of the world, accentuating that the photographer can also prove to be a performer from the moment his artistic act penetrates the intimacy of believers and joins, literally and symbolically, to them in one pageant, resulting in images full of meanings and representations” –  Cinthya Marques, bachelor of visual arts and researcher.

“Guy Veloso’s work takes the light as the main line. From vibrant and saturated color, his photographs resist surrendering to the full enjoyment of the chromatic game, making his coppery color palette proves through a dense shade. Shuch darkness, which lends a night aura even for images captured under the midday sun, would cover up its entire chrome, not for the light sources and the shields reflecting and titing its colors. It is that important, therefore, that these screens are, in most cases, bodies engaged in rites of belief that are themselves acts of searching for some sort of enlightenment. In the exhibition “We must confront the vague images with clear gestures”, a triptych and a diptych of Veloso will be present in which gestures of various rituals are mixed, since sacred cults like Candomblé and Umbanda to the prosaic carnival and ballet”, Paulo Miyada, curator.

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Foto Guy Veloso. Umbanda, Belém-PA, 2015. Digital.

Guy Veloso remained in this quest for over a decade until his work break the classical pattern of documentaries to dive in a renewed aesthetic, in which he puts us in touch with a new range of dimensions. The images thus become organic. It is like we were not seeing photos anymore ‘about’ something but the thing itself. It is sometimes necessary to experiment, expand the language, breaking with the manuals, so that the realism erupt with greater forcefulness” – Eder Chiodetto, the text for the exhibition “Generation 00” , Belenzinho SESC , Sao Paulo -SP , 2011.

Penitents project (2002-2019). Guy Veloso  www.guyveloso.com

Projeto Penitentes (2002-2019). Foto Guy Veloso. Ritual de autoflagelação, sexta-feira Santa, zona rural de Juazeiro-Bahia, 2015, digital / Penitents Project (2002-2019). Self-flagellation ritual, good friday, Bahia-Brazil, 2015, digital.

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29a Bienal de São Paulo – catlálogo.

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Posted by: guyveloso | 3 de July de 2019

Bom Jesus da Lapa-Bahia

Fotografia documental documentary photography Latin American

Anjo, base do andor que leva a imagem de Bom Jesus. Romaria de Bom Jesus da Lapa-Bahia, 2001. Foto Guy Veloso. Gelatina e sais de prata / Girl dressed as an angel tries to keep her balance in the base of the platform taking the image of Good Lord Jesus during the procession, Bahia-Brazil, 2001. Gelatin silver print.

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Posted by: guyveloso | 1 de July de 2019

Mangueira, 2010

Mangueira. Desfile das Escolas de Samba, Rio de Janeiro-RJ / Br

GRES Mangueira, 2010. Diapositivo. Foto Guy Veloso.

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Penitentes documentaryphotography GuyVeloso.jpg

© Guy Veloso. Projeto Penitentes (2002-2019). Ritual de autoflagelação, Juazeiro-Bahia, semana Santa, 2014 / Self-flagellation ritual, Bahia-Brazil, 20014.

 

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Posted by: guyveloso | 28 de May de 2019

Arquitetura sertaneja / brazilian popular architecture

Casa sertaneja sertao nordeste.jpg

Aurora-CE, 2007. Diapositivo. Foto © Guy Veloso 

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Posted by: guyveloso | 9 de April de 2019

Crítica de Paulo Herkenhoff

Guy Veloso viu o mundo, ele começava em Belém, no Círio de Nazaré. No Pará estava a matriz da diversidade e, na arte, sua possibilitação de convivência na diversidade.1 Para isso, é necessário transcender a noção de homem bíblico.2 Se para um Pierre Verger turista-fotógrafo-antropólogo urgia deixar Paris, não importa para onde fosse pelos continentes, até mesmo atravessar a Belém amazônica, para Veloso é preciso partir de Belém e a ela voltar sempre.

Círio de Nazaré, Belém-PA / Cirio procession, Belém (Amazon), Br

Círio de Nazaré, 2010, slide. © Guy Veloso

De toda a fotografia de Belém, até mesmo do Círio de Marcel Gautherot ou dos rituais afro-brasileiros de Pierre Verger, Guy Veloso representou profundamente a interpretação polissêmica integrada inter- -religiosa, reduziu-a a um ato único, o êxtase do alvo e a contorção do tempo da câmera caçadora nos domínios do sagrado. O transe é fusão extática do corpo apropriado e dobrado pela fé, da excitação significante do fotógrafo e da contemplação do espectador. O caudal imagético – que se faz no tempo e nele se condensa – é mantra visual que se repete, reinventa, ora, imbrica, diferencia, aproxima e desdobra entre os meandros do cortejo visual da diferença. Isso é o caudal amazônico de body languages por almas as adas de seus corpos. Já não é o corpo tomado, mas o próprio corpus de imagens que se transfigura em olhar. Daí, a experiência da arte de Veloso ser o encontro com um corpus em êxtase.

Guy Veloso articula encontros de fé.3 A câmera é tenaz na aliança por imagens da arca da diversidade religiosa do Brasil, das diferenças e das convergências. Em tempo de insidiosa intolerância das doutrinas fundamentalistas no Brasil e no mundo, o artista aposta na arte como instância de diálogo e de entendimento para a construção do respeito devido por todos a cada um. Nessa compreensão está seu diagrama de convivência social e um sentido político de igualdade e razão contemporânea para a ideia de religião. Há na obra dele a produção de conhecimento, como no filósofo e historiador das religiões Mircea Eliade, sobre o fenômeno do sagrado e não, simplesmente, a antropologia visual da religião. Eliade hierarquiza as religiões, tais como as “rudimentares”, mas seus estudos sobre o sagrado, a festa e a guerra demarcam estratégias para os ritos, demarcados para originar “gestos importantes e fé bastante para os fazer parecer necessários”, essenciais à vida.4

Na romaria fotometafísica de Guy Veloso, o grande curso público da fé funde-se num essencialismo imagético e unificado pelo transe. Imagens em estado de devir Outro. Na arte de Veloso, o transe é para todas [as religiões], como a histeria é para todos [os sujeitos] na produção de Louise Bourgeois. O igualamento acima de todas as verdades autoproclamadas como absolutas. O psiquiatra Charcot e o filósofo Georges Didi-Huberman demonstraram a mesma origem comum e a fala contorcida do corpo sem escuta. Entre o esconjuro, o descarrego e a autoflagelação – fala-se agora da arte de Veloso – a dependência entre a conversão, o inferno e a fortuna, como ocorre em algumas religiões rentistas por denegação loquaz, conceito freudiano, em que o Não termina como Sim.

A fotografia de Guy Veloso desdobra-se em ângulos de captura da cena de exercício da fé. O conjunto transita entre a interioridade do Ser, o êxtase diante do Outro e o corpo em estado de sublimação. “Pode- -se rezar sem compreender as palavras”, afirma Jacques Derrida, pois, “a oração é um ato. Faz-se ago, mesmo se o significado permaneça opaco.”5

Portanto, se é possível rezar sem entender as palavras, a obra de Veloso é oferta do significante ao espectador, não importa sua religião, para momentos de encontro com o inominado. Contra as primazias e fundamentalismos religiosos, o artista aponta para a etimologia da palavra religião e a ideia de “religar” os homens acima de seus conflitos porque os terrorismos em nome das religiões monoteístas recorrem ao fogo – armas, coquetéis molotov, explosivos, ameaças de Inferno e culpa – para construir sua entropia de Deus. O corpo, nessas imagens de Guy Veloso, explode em notações pela luz prodígio.

Paulo Herkenhoff. Catálogo da exposição Pororoca, MAR-Museu de Arte do Rio, 2014.

1 Paráfrase da grande pintura de Cícero Dias Eu vi o mundo… E ele começava no Recife (1931).
2 REHFELD, Walter I. Tempo e religião. São Paulo: Perspectiva, 1988.
3 O substantivo fé está no singular, evitado o plural que é diviso em muitas possibilidades conflitantes.
4 ELIADE, Mircea. O homem e o sagrado. Sem tradutor. Lisboa: Edições 70, 1988. p. 161.
5 DERRIDA, Jacques. Body of prayer. Conversa com David Shapiro e Michael Govrin. Kpm Skapich (ed.). Nova York, The Irwin S. Chanin School of Architecture, 2001. p. 59.

Posted by: guyveloso | 28 de February de 2019

Encomendação das Almas, Itapecerica-MG

Encomendação das Almas, Itapecerica-MG. © Guy Veloso, 2016. Projeto Penitentes (2002-2018). Agradecimento: Sociedade Renasceriana de Itapecerica.

Encomendação das Almas, Itapecirica-MG. Foto © Guy Veloso. ww

 

Posted by: guyveloso | 16 de February de 2019

Self-flagellation ritual, Juazeiro-Brazil, 2015

Ritual de autoflagelação, Semana Santa, Juazeiro-Bahia, 2015. Digital. Projeto Penitentes (2002-2019) / Self-flagellation ritual, Holy week, Juazeiro-Brazil, 2015. Penitents Project (2002-2019). 

© Guy Veloso

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Posted by: guyveloso | 15 de February de 2019

Vale do Amanhecer, 2003

Comunidade religiosa Vale do Amanhecer, Planaltina-DF / Vale do Amanhecer, Brazilian mystic community. © Guy Veloso, 2003. Slide.

ValedoAmanhecer Guy Veloso.jpg

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Posted by: guyveloso | 7 de February de 2019

Maha Kumbha Mela – O Maior Festival da Terra

Texto e foto © Guy VelosoRegistrado na Biblioteca Nacional (RJ).

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© Guy Veloso. Maha Kumbha Mela, Allahabad, Índia, 2001. Slide

 

Homens-santos saíam nus em procissão com seus corpos cobertos de cinza branca. Centenas de autofalantes ligados em rede transmitiam a todo volume os cânticos e as longas pregações. O curso de dois rios sagrados se encontravam e, neste exato ponto – chamado “Sangam” e famoso em todo o mundo hindu – centenas de milhares de pessoas banhavam-se simultaneamente, como um balé incontrolável, inteligível, invencível. Calcula-se que apenas no dia 24 de janeiro de 2001, 30 milhões de peregrinos aportaram na cidade de Allahabad, norte da Índia, movimento este que chegou ao total de 70 milhões de pessoas ao final do mês indostânico de “Magh” (09 de janeiro a 21 de fevereiro). Esta é a Maha Kumbha Mela, o maior de todos os festivais.

Uma espera de 144 anos. A Índia se mostra em plenitude de 12 em 12 anos. É o Festival de “Purna Kumbha Mela”, quando caravanas de peregrinos partem de todos os pontos do país para a cidade de Allahabad (estado de Uttar Pradesh, 575 quilômetros da capital Nova Deli) a fim de banhar-se no “Sangam”, local onde os rios sagrados Ganges e Yamuna (além do mítico – e invisível – rio Sarasvathi) se unem, fazendo o maior deslocamento populacional do mundo em um só país por causas pacíficas. Acredita-se que este ritual, realizado há séculos naquelas águas, trará bênçãos aos devotos e purgação dos seus pecados. Este ano, o evento foi mais especial ainda, pois se completou um ciclo de 12 festivais, ou seja, 144 anos, a chamada “Maha (grande) Kumbha Mela”.

A tradição. Desde tempos imemoriais o homem busca o sagrado através da peregrinação. Afasta-se temporariamente de seu local de origem, onde ele tem sua morada e seu trabalho, e sai em busca de um lugar especial pela sua história, beleza ou tradição. Onde um deus nasceu, onde um santo está enterrado, um local em que um herói venceu batalhas, ou onde um ritual é sucessivamente executado através dos séculos. Meca, a cidade saudita que todo o muçulmano deve visitar ao menos uma vez na vida; Jerusalém, marco para as três maiores religiões monoteístas do mundo; e Santiago de Compostela, na Espanha, são os exemplos mais conhecidos para nós, ocidentais.

Deuses do bem e do mal. A Kumbha Mela origina-se junto a própria religião hindu, com citações nas milenares escrituras Vedas e Puranas. Segundo a lenda, os demônios roubaram dos deuses um jarro (Kumbh) de cerâmica que guardava o néctar da imortalidade (Amrit), provocando uma batalha celeste entre o bem e o mal que durou 12 dias cósmicos (correspondente a 12 anos terrenos). Os demônios com pressa de fugir, deixaram cair quatro gotas do Amrit em quatro lugares da terra, nas cidades indianas de Hardwar, Nasik, Ujjain e Allahabad. Desde então, estes locais viraram pontos de peregrinação, cujo fluxo de devotos se intensifica em datas especiais. O desfecho da lenda é previsível: ao final do 12o dia, os deuses recuperaram o jarro e venceram os demônios, sendo este o motivo desta ancestral festa.

A chegada. A viagem do Brasil até Allahabad teve tantos embarques e desembarques (Zurick, Nova Delhi, Varanasi – ufa!), que acho melhor nem contar os detalhes. Falar das tediosas horas sentado e da comida do avião? Deixa pra lá! Vou começar, então, minha história a partir do aeroporto de Benares (antigo nome de Varanasi), no qual aportei dois dias depois de meu embarque no Rio de Janeiro. Logo na chegada, hordas de taxistas apertavam-se diante da sala de desembarque e só faltavam carregar literalmente os turistas para seus carros. Fiquei meia hora sentado no lado de dentro, esperando a fúria dos motoristas se acalmar, decidindo qual seria a melhor maneira de chegar a Allahabad, distante 140 quilômetros, acessível somente de carro, ônibus ou trem. A primeira opção venceu, já que me dava a certeza de alcançar aquela cidade em apenas 3 horas. Para quem reclamou que a viagem de avião foi tediosa, a de táxi em alta velocidade por estradas de terra mal sinalizadas, de apenas duas mãos, muitíssimo movimentadas e cheias de curvas, por si só foi uma aventura.

Depois de chegar são e salvo em Allahabad, consegui de última hora por muita sorte uma vaga no melhor hotel da cidade, o Kanha Shyan. Reserva no chão, melhor dizendo, pois todos os quartos deste hotel – e pelo que notei de todos os outros hotéis e pensões da cidade – estavam lotados. Assim, paguei 30 dólares e fiquei junto com mais 70 turistas em colchões deitados no piso acarpetado do luxuoso salão de convenções do Kanha Shyan, improvisado como um grande albergue, com um só banheiro – sem chuveiro – para todos. Nada mal: era a véspera do “Mauni Amavasya”, o dia astrologicamente mais favorável ao banho-ritual de todo o festival, e conseguir um lugar para pernoitar sem ter feito reserva – o meu caso – era uma bênção. Dormi ansioso pelo dia seguinte, o mais sagrado e concorrido Maha Kumbha Mela, o maior festival da terra.

Multidões. Antes do nascer do sol, juntava-me à multidão anônima que singrava pelas ruas amplas de Allahabad naquele dia tão especial, 24 de janeiro de 2001, quando sete planetas do sistema solar estavam perfilados no céu, evento astronômico este que ocorrerá de novo só no ano 2145. Eram duas forças que quase se chocavam: levas de peregrinos chegando a Prayag (antigo nome de Allahabad, antes do imperador muçulmano Akabar tomar estas terras no ano de 1583), e outras tantas centenas partindo ao mesmo tempo, depois de terem se purificado pela água e pela fé. Os que iam embora, cansados, calados, mas com o semblante vívido, como que guardassem para si uma experiência mística. Os que ali chegavam, cantavam alegremente, uns até choravam, e se deslumbravam com a experiência de ver uma cidade grande e seus atrativos de perto – boa parte provinha de vilarejos rurais longínquos. Ouvi falar também de casos de pessoas que aportaram lá depois de meses de caminhada, e que desta mesma forma retornariam a seus lares. Os números oficiais chegaram a exorbitante conta de 30 milhões e meio de pessoas banhadas no confluência dos rios sagrados durante aquele dia, o Mauni Amavasya, considerada esta a maior concentração humana em um só ponto até agora já vista no mundo.

A Grande Feira. Após cruzar a cidade, os recém-chegados descem uma pequena colina e vencem o Rio Ganges através de sete estreitas pontes improvisadas pelo governo com madeira sobre tonéis de ferro, formando para quem observava do alto um espetáculo grandioso, uma dança de milhares de almas, como que regido por mãos divinas. Com o inverno (dezembro a fevereiro), por volta de 80% do amplo leito do Ganges seca com a falta do desgelo dos Himalaias, formando ao centro um grande banco de areia. E lá, sobre esta extensa faixa de terra que meses atrás estava coberta por águas sagradas, uma cidade erguida para durar pouco mais de 50 dias. Algo no mínimo singular: são grandes templos sazonais em madeira e plástico colorido, centenas deles, todos recobertos de bandeiras, símbolos, pinturas e imagens de deuses. Cada um acolhia uma corrente de pensamento hindu (diversas seitas, gurus e escolas filosóficas possuíam ali seu “mandir”). Em torno dos santuários, dezenas de milhares de tendas de lona marrom enfileiradas serviam de hospedaria, como que ali acampasse um exército. Esta “cidade efêmera”, chamada “feira”, ocupava uma área de 12.000 hectares e a população flutuava em torno de um milhão de pessoas a cada noite.

Os homens-santos. Dentro desta grande feira, conviviam todas as castas e sub-castas hindus, em uma harmonia incomum. Milagre dos deuses. Também, o lugar era palco de curiosidades. Algumas delas, exóticas, como grupos de sahadus, os “homens-santos”, ascetas que dedicaram suas vidas à oração e abstinência vindos de todos os rincões da Índia, que perambulam nus e cobertos de cinza (colhidas nos crematórios!), ou então vestindo somente uma velha túnica alaranjada, exibindo suas infinitas tranças na longa cabeleira como um troféu. Eles mendigavam para comer, davam bênçãos a quem os procurasse, e parte deles fumava maconha abertamente em quantidades industriais. Os sahadus saíam em dias especiais (seis vezes durante o festival) em grande procissão para lavar-se nas águas sagradas, com seus passos sendo anunciados por clarins e tambores – por vezes elefantes abriam o cortejo –, acompanhados de uma multidão crente em seus poderes especiais. Na feira havia também outros espetáculos que, mais que curiosos, eram no mínimo, esdrúxulos para a concepção ocidental, como os velhos faquires em suas camas de pregos, além de grupos de “yoguis” em penitência – vi um senhor que conserva o braço direito levantado ininterruptamente por 27 anos, e um rapaz que há 6 anos não se deitava, dormindo todas as noites em pé, escorado em algo.

Sangam, o ponto sagrado. Ao centro, a grande feira com suas milhares de tendas; de um lado, o Ganges, mais caudaloso, de leito escuro; do outro, o Yamuna, de águas tranqüilas, verde-claras: esta era a minha visão do alto das muralhas do grande Forte de Allahabad, que guarda tanto a cidade quanto a união dos rios. Depois de nascerem na Cordilheira dos Himalaias, os dois rios sagrados caminham separados centenas de quilômetros até se fundirem naquele exato ponto, o Sangam. Segundo a lenda, há um terceiro rio, Sarasvathi, não visível aos olhos humanos, que ali também “deságua” seu fluxo etéreo, completando simbolicamente uma analogia aos deuses da trindade hindu, Brahma, Shiva e Vishnu.

Na parte rasa do Sangam, a água chegava no máximo a um metro de profundidade, e sua área ficava ampla o suficiente (4 quilômetros quadrados) para receber ao mesmo tempo alguns milhões de pessoas para o banho-ritual. As mulheres mergulhavam com toda a roupa, trajando seus melhores “saaris”, enquanto os homens imergiam somente com a roupa de baixo, depois de terem grande parte deles raspado os seus cabelos. Crianças muito pequenas, a contragosto, eram também mergulhadas naquelas águas frias. Muitos também a ingeriam ou com ela escovavam os dentes. No Sangam, os fiéis depositavam as suas oferendas – flores, moedas, arroz, leite, frutas – e, antes de partir, compravam garrafas de plástico a fim de levar para casa, como uma relíquia, um pouco daquela água sagrada. Tudo sob a sob a vista do Deus Shiva, que a tudo e a todos observa de seu trono nos Montes Himalaias – segundo a tradição, o Ganges nada mais é de que os cabelos de Shiva descendo das montanhas.

Quando a terra tremeu. Receando desastres iguais aos que ocorreram em eventos anteriores – em 1950 mais de 300 peregrinos morreram afogados no Ganges após um distúrbio – tão como a constante ameaça de ataques terroristas de extremistas muçulmanos desagradados com a política adotada em relação ao território da Cashemira, o Governo indiano colocou um enorme contingente do exército e da polícia nas ruas, todos trabalhando na proteção e organização do evento. No meu hotel, por exemplo, havia um homem com espingarda montando guarda em cada uma das portas de entrada. Os deuses ajudaram, e nos sete dias que passei na Maha Kumbha Mela, nenhum incidente sério ocorreu. Mas, parecia que estes mesmos deuses haviam virado as costas para uma província muito distante dali. Em Gujarat, extremo oeste da Índia, um violento terremoto arrasou em poucos minutos cidades inteiras. Como eu estava bem longe do epicentro, somente tomei um bom susto – em Allahabad o tremor foi sentido, mas sem causar dano algum. Duro, foi ouvir as notícias que chegavam a todos os instantes sobre este grande desastre, que teria matado 50 mil pessoas naquele país que ora me recebia. Pela noite, angustiado depois de ver o noticiário da CNN no hotel com cenas bizarras da tragédia, duvidei da existência dos deuses. Cheguei a pensar que aquelas milhares e milhares de oferendas e orações jogadas ao rio tinham sido em vão.

Sua Santidade. Faltavam dois dias para eu partir, e finalmente tinha conseguido um quarto no hotel. Eu merecia! Enquanto tomava o café, lendo em inglês o “Hindustian Times”, descobri que naquele dia estaria fazendo uma visita oficial a Allahabad nada menos que Sua Santidade, o 14o Dalai Lama, chefe de Estado em exílio do Tibet. Nem pensei duas fazes para terminar ali o desjejum e sair atrás deste grande líder espiritual budista. Vaguei por horas dentro da feira, correndo atrás de informações desencontradas, até por fim achá-lo dando uma palestra em um grande templo de lona. Faltava então só passar pela barreira do exército indiano, pela barreira dos assessores e seguranças de Sua Santidade, pelas centenas de ocidentais que assistiam o colóquio, e pela última e mais difícil barreira, a dos fotógrafos que se acotovelavam na frente do palco. Tive sorte, e cheguei depois de muito trabalho a dois metros de Sua Santidade, tendo ainda tempo de tomar algumas imagens desta grande figura, Prêmio Nobel da Paz em 1989. Ele foi embora poucos minutos depois, não sem antes dar uma mensagem de paz entre os homens e de tolerância entre as religiões – pelo simples fato dele, o maior líder budista vivo, estar presenteem uma festa hindu, era prova de que aquilo não era um sonho impossível. Saí de lá emocionado, feliz por estar naquele lugar longínquo, uma feira medieval quase que perdida no tempo, voltando a acreditar nos deuses – os mesmo que reneguei noite anterior ao ver o noticiário da Tv.

As memórias. A viagem estava acabando. Dia seguinte, pegaria bem cedo o primeiro trem para Varanasi, e já era hora de pensar em arrumar as malas e as memórias para a longa jornada de retorno ao Brasil. Era meu último dia inteiro na Grande Feira, e saí do hotel logo depois do sol dar as caras. Só que desta vez, não levei as lentes, câmeras, bloco de notas ou filmes. Queria caminhar sem obrigação de registrar nada. Ou melhor, registrava sim, em minha memória, estes meus últimos momentos na Maha Kumbha Mela. Afinal, uma festa igual só daqui a 144 anos.

Cruzei a pé Allahabad, para depois de seis quilômetros chegar ao Sangam, junto a enorme massa que lavava seus corpos e almas. Eu não era um peregrino, de certo, mas também, não era mais um mero turista curioso por uma feira exótica. Via que depois destes dias, me sentia um pouco que fazendo parte daquela festa, daquele mundo tão diferente do meu.

Os incensos plantados na areia, as carradas de flores jogadas na água, a fumaça das fogueiras que aqueciam famílias inteiras e a fragrância das comidas muitíssimo condimentadas vendidas pelos ambulantes, inundavam de odores díspares os meus pulmões. Ao final da tarde, quando a temperatura começou a cair, apertei meus olhos como que tentando captar ao máximo aquelas últimas imagens. A névoa – resultado da combustão simultânea de milhares de fogueiras – pairava sobre toda a feira proporcionando um espetáculo dramático, onde se podia olhar diretamente o sol duas horas antes de seu crepúsculo. As cores brincavam em minhas retinas. Ah, as cores da Índia, naquele lugar sagrado, pareciam mais pujantes ainda; carregadas de uma aura mística, ritualística, que só naquele país distante se pode observar com tanta plenitude.

 

Originalmente publicado na Revista Horizonte Geográfico em 2001.  Texto © Guy Veloso. registrado na Biblioteca Nacional (RJ).

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